Moda à Toa: Uma homenagem para as mulheres: do Cangaço para as Passarelas

Uma homenagem para as mulheres: do Cangaço para as Passarelas

Mês passado, a Revista Algomais publicou em sua capa uma reportagem bem interessante sobre como Maria Bonita, ícone feminino do Cangaço, transformou-se em marca.
O texto é de Mirela Soane e também está publicado no blog da Revista Algomais.

Vamos conferir?

A Marca de uma Sertaneja
Ícone feminino do Cangaço, Maria Bonita completa centenário de nascimento em 8 de março, data em que se comemora o Dia Internacional da Mulher. A jovem ousada, que rompeu preconceitos e tradições para ingressar no bando de Cangaceiros como companheira do líder Virgulino Ferreira da Silva (Lampião), hoje é sinônimo de sofisticação. Maria Bonita empresta seu nome para grifes famosas, hoteis, SPA’s, clínicas de estética e salões de beleza. Maria Bonita virou marca.
“Isso se deve ao fato dela ter sido uma sertaneja de porte fino, elegante e a ideia que se tinha de um sertanejo era de uma figura relaxada com a aparência. Os cangaceiros gostavam de se embelezar e isso desperta a atenção das pessoas já há algum tempo. Zuzu Angel, por exemplo, abordou a temática Cangaço no seu desfile de 1969, em Nova York”, relata Vera Ferreira, neta de Lampião e Maria Bonita.
Na moda, talvez, Maria Bonita tem sua mais conceituada representante desde 1975, quando Maria Cândida Sarmento e Malba Pimentel de Paiva criaram a grife que leva o nome da cangaceira. O objetivo da dupla era atender às mulheres modernas que desejavam uma marca forte, à frente de seu tempo; vesti-las com estilo e elegância, sem condicioná-las a padrões de mercado.
Em 1990, as empresárias criaram a Maria Bonita Extra com a proposta de apresentar peças jovens e girlie. Hoje, as marcas são sinônimo de bom acabamento, despojamento e refinamento, além de serem consideradas “escolas da moda” devido a quantidade de renomados profissionais que passaram pela grife como Isabela Capeto, Antonia Bernardes, Maria Fernanda Lucena e Naná Paranaguá.
A Maria Bonita tornou-se referência no mundo fashionista e participa ativamente dos principais desfiles de moda do país. Recife conta com uma unidade da versão jovem da marca, que, assim como a pioneira, também pode ser encontrada em cidades como Rio de Janeiro, São Paulo, Campinas, Belo Horizonte, Ribeirão Preto, Porto Alegre.
Segundo a jornalista e pesquisadora sobre Cangaço há 15 anos, Wanessa Campos, a companheira de Lampião era um exemplo de beleza para a época. “Baixinha, de pernas grossas roliças, seios pequenos, cabelos finos e olhos claros”, afirma Campos, baseada nos estudos e entrevistas realizadas para a produção de um livro que será dedicado a história da rainha do Cangaço.
“Certamente será algo inédito, já que muitas obras retratam Maria Bonita apenas como coadjuvante. No meu livro, ela será a personagem principal. O trabalho é difícil, mas prazeroso. Tenho viajado muito por cidades de Sergipe e da Bahia conversando com historiadores, ex-volantes e familiares dos Reis do Cangaço, como Expedita (filha) e Vera (neta)”, revela.
Maria Bonita foi a primeira mulher a entrar para o Cangaço. A partir daí, outros integrantes passaram a agregar as companheiras ao bando. Para o historiador e pesquisador, Frederico Pernambucano de Mello, outras duas situações propiciaram a entrada das mulheres no Cangaço: a proximidade do grupo do Baixo São Francisco, possibilitando uma melhor higiene pessoal devido a abundância de água; e o fato de Lampião ter se deparado com a Coluna Prestes e percebido que a presença de mulheres entre eles não influenciava no desempenho dos combatentes.
Maria possibilitou a entrada de mais 40 mulheres no Cangaço, agregando melhores hábitos de higiene e mudanças nas vestimentas. “Dadá, companheira de Corisco, era a responsável pelos desenhos das roupas. Nas cidades que percorriam, os cangaceiros já tinham suas costureiras e periodicamente levavam os desenhos e os tecidos para que as roupas fossem feitas”, afirma Campos.

Por outro lado, Mello garante que as roupas encomendadas eram exceção à rotina dos cangaceiros. Ele afirma que todas as vestimentas, tanto em tecido como em couro, eram feitas no leito do próprio grupo. “A maioria dos cangaceiros sabia costurar e bordar. Apenas quando não tinham tempo disponível, as encomendas eram feitas. Inclusive, Dadá não tinha liderança nenhuma para ditar moda”, garante.
Segundo o historiador e autor do livro “Estrelas de Couro – A Estética do Cangaço”, Lampião bordava de maneira exímia e tinha habilidade na costura do couro e do tecido. “O bordado de Lampião era melhor do que o de Maria Bonita. O bando possuía uma máquina de costura portátil, inclusive registrada em várias fotos, sendo utilizada tanto por Lampião como por outros cangaceiros”, afirma.
Mello relata que em conversa com o cangaceiro conhecido por Candieiro, ele garantiu que Lampião tinha desenvoltura com a costura. “Candieiro contou-me que Lampião fez um jogo de bornais para ele. O rei do Cangaço teria colocado um papel sobre a coxa, desenhado flores e posteriormente bordado a peça na máquina para presentear o colega”.
Já Ferreira afirma que o avô não tinha apreço por costurar. “Falam que Lampião gostava muito de costurar. Ele realmente era muito habilidoso com o couro, mas esta é uma habilidade característica dos vaqueiros, dos sertanejos de maneira geral. Por vezes eles precisavam fazer reparos nas roupas rasgadas pela vegetação seca do sertão”, explica Ferreira.
Embora existam discordâncias quanto aos “responsáveis” pela moda do Cangaço, não se pode negar o curioso. Homens e mulheres vistos como salteadores sanguinários usavam bornais bordados com flores coloridas ou desenhos simétricos, cantis decorados, perneiras de couro com ilhoses e fivelas, chapeus com bordados de estrelas, lenços de seda e tafetá envoltos no pescoço. “Talvez isso tudo venha da alma colorida do brasileiro”, comenta Mello.
De Maria Bonita, hoje, restam dois vestidos que retratam bem a maneira das cangaceiras se vestirem. O chamado vestido de batalha (não no sentido de luta, mas de cotidiano; dia a dia) que faz parte do acervo de Mello é feito em brim grosso, cor de goiaba, enfeitado com galões e com os punhos revestidos em vermelho. O segundo está no Museu Histórico Nacional, no Rio de Janeiro. O modelo cinza, com riscas de giz e enfeitado com sinhaninha vermelha era mais utilizado aos domingos ou em comemorações especiais.
No bando, as mulheres desempenhavam o papel de companheiras e não tinham, por exemplo, a obrigação de cozinhar. Esta tarefa ficava mais com os homens. A presença do feminino também passava segurança para as pessoas que se deparavam com os cangaceiros. Por vezes Maria Bonita evitou a morte de crianças e idosos. “Além disso, os crimes contra os costumes, como o estupro, também diminuíram”, afirma Mello.
Outro mito é a participação feminina nos combates. As mulheres eram treinadas e aprendiam a atirar apenas para uma possível necessidade de defesa. Elas não participavam ativamente dos tiroteios, exceto Dadá quando substituiu o marido que teve os braços feridos em batalha.
Para Ferreira, o imaginário popular acerca da personalidade de Maria Bonita se confunde com a realidade. “Pouca gente sabe que de brava ela não tinha nada. Minha avó era uma moleca, bem humorada e fazia brincadeira com todo mundo. Ela era amiga, agradável, carinhosa, generosa e cuidava bem das pessoas”, revela. Campos reforça o argumento sobre as lendas que permeiam o universo do Cangaço: “Lampião não inventou o Cangaço, mas foi o cangaceiro mais conhecido. Nem tampouco inventou o Xaxado, mas foi seu grande divulgador”.
O desejo de ser mãe – inerente à maioria das mulheres – também estava presente entre as cangaceiras, embora o estilo de vida do bando não lhes dessem condições de permanecer com os filhos. “Diziam que as mulheres eram muito crueis porque abandonavam seus filhos. Mas, na verdade, elas faziam isso porque não tinham escolha. Se ficassem com a criança, o choro entregaria a localização do grupo; e se retornassem para seus lares certamente seriam entregues e mortas pelas autoridades”, argumenta Campos.
A companheira de Lampião teve quatro gestações, mas apenas a última delas vingou. O bebê recebeu o nome de Expedita e passou somente 21 dias na companhia da mãe até ser entregue para ser criada por um casal que já dispunha de 11 filhos. A criança sabia sua verdadeira origem e poucas vezes encontrou com os pais que a visitavam sempre que podiam. “Os bebês das mulheres do Cangaço eram entregues a pessoas de confiança, padres, fazendeiros, vaqueiros, autoridades e até mesmo policiais”, conta Ferreira.
O romance de Maria Bonita e Lampião durou nove anos. No dia 28 de julho de 1938, na Grota do Angico, na margem sergipana do Rio São Francisco, o bando de Lampião foi atacado de surpresa por soldados da polícia alagoana. No combate, entre os onze mortos estavam os reis do Cangaço.
BONITA
Lampião chamava Maria Bonita de Santinha e os outros integrantes do grupo a chamavam de Maria do Capitão. No entanto, Maria Gomes de Oliveira também era conhecida como Maria Déa, que faz alusão a maneira como sua mãe era conhecida: Dona Déa. Ferreira revela que o nome Maria Bonita foi dado por um ex-volante apaixonado por sua avó. O apelido então foi perpetuado pelos cordeis e pela imprensa.

GRANDE AMOR
“Sem dúvidas, Maria Bonita viveu um grande amor por Lampião”. Quem garante a afirmativa é a neta dos reis do Cangaço. Vera Ferreira acredita que apenas um amor verdadeiro faria a jovem Maria Gomes de Oliveira romper preconceitos e tradições da época.

Maria nasceu na fazenda Malhada da Caiçara, em Paulo Afonso, e casou-se muito jovem com um sapateiro chamado José Miguel da Silva. De Lampião, ela apenas ouvia histórias de que um “tal” bandoleiro circulava do outro lado do São Francisco. “Ela primeiro conheceu o mito, depois o homem”, comenta Mello.
Até que em agosto de 1928 os cangaceiros foram perseguidos em Pernambuco e o bando, em número reduzido pela batalha, atravessou o Rio São Francisco e adentrou as terras baianas. Na tentativa de compor uma rede de protetores, “coiteros” que favoreciam os cangaceiros com informações e serviços, Lampião conheceu a família de Maria Bonita.
Ao conquistar a confiança e simpatia de Dona Déa, soube da admiração de Maria Bonita pelo Cangaço. No final de 1929, quando teve a oportunidade de conhecer a jovem, pediu que ela bordasse uns lenços e garantiu que voltaria para buscar. “Minha avó, que já estava separada do marido, apaixonou-se por Lampião. Eles namoraram até o final de 1930, quando ela decidiu juntar-se a ele, no bando”, revela Ferreira.
Mello analisa a união de outra forma. O historiador garante que ao seguir com o bando, Maria Bonita ainda estava casada. “Lampião deixou, inclusive, um bilhete para José Miguel avisando que ele estava levando Maria Bonita consigo, mas que ela seguia por vontade própria”, afirma.
Ainda há muitas divergências entre historiadores e pesquisadores do Cangaço que geram dúvidas sobre as verdadeiras versões dos fatos. Será que ainda há muito a ser revelado? Depois de um centenário, parece que a história do Cangaço ainda ganhará o interesse de muitos curiosos.
CENTENÁRIO
Em comemoração ao centenário de nascimento de Maria Bonita, Vera Ferreira está organizando uma exposição itinerante que percorrerá todo o país com fotos, objetos, textos e o lançamento do livro “Bonita, Maria do Capitão”. A iniciativa conta com o apoio do Banco de Sergipe (Banese) e da Universidade do Estado da Bahia (Baneb). “Recebemos, inclusive, o convite para levar a exposição para a Casa Cultural Brasil-França”, comemora Ferreira, que assina a autoria do livro, em parceria com a pesquisadora Germana de Araújo.

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